Resenha: Ted Bundy - Um Estranho ao Meu Lado


por Aryadinni Leal

Ted Bundy - Um Estranho ao meu lado foi até agora a leitura mais difícil do ano. E colocar em palavras tudo o que esse livro me fez sentir vai ser um exercício árduo. Mas, com toda certeza, é um dos melhores livros de #truecrime que já li e o relato mais completo da vida de um dos serial killers mais notórios da história.

A autora do livro, Ann Rule, traz um relato extremamente pessoal. A narrativa em primeira pessoa é aproximadora, sensível e muitas vezes até culposa. Ann trabalhou com Ted em um centro de prevenção ao suicídio e criaram uma forte ligação. Ela mostra Ted como um amigo gentil, compreensivo, sempre disposto a ouvir e com bons conselhos. No livro, Ann se intitula como a pessoa que mais conhecia Ted Bundy. E mesmo assim, durante os 2 anos trabalhando lado a lado, sozinhos, em turnos durante a madrugada, ela não desconfiou de nada.

Ann começou a trabalhar no centro de prevenção onde conheceu Ted por dois motivos: Necessidade e culpa. Com um marido doente em casa e 4 filhos para criar, ela precisava de uma renda extra. E havia perdido o irmão para o suicídio. Via naquele trabalho uma forma de ajudar pessoas como achava que não tinha conseguido com o irmão. Ela mal sabia que naquele bico iria conhecer o principal personagem que pautaria o maior trabalho de sua vida: Escrever sobre o serial killer Ted Bundy.

Ann já era uma repórter investigativa renomada quando os casos de desaparecimento começaram a acontecer em Utah. Convidada para cobrir as investigações, assinou o contrato do livro sem ter a menor ideia de que o assassino procurado era o não tão estranho ao seu lado. 

Como introdução, ela traz as perguntas mais frequentes que recebia de curiosos sobre Ted Bundy. Nega a paixão por ele que foi levantada após a publicação da primeira edição do livro, na década de 80.

Depois de estabelecer sua relação com Ted, Ann começa a dolorosa missão de relatar os casos que a princípio eram apenas desaparecimentos de mulheres bonitas, na mesma faixa etária e extremamente parecidas. Ted tinha um padrão de vítimas e ela traz isso nos mínimos detalhes.

O transcrever dos casos acontece de forma cronológica e mesmo sabendo que todos aqueles desaparecimentos são vítimas de Bundy, Ann consegue trazer, num talento nato de escritora, toda a angústia de cada novo caso. Todos muitos próximos. Às vezes, mais de um no mesmo dia. Ted começou a matar nos anos 70, mais precisamente em 74 e passou por 3 condados dos EUA, deixando seu rastro de sangue e crueldade em vítimas femininas. (Essas datas e estatísticas são as apresentadas no livro como dados confirmados, mas acredita-se que Ted tenha começado a matar muito antes).

Do primeiro desaparecimento em 74, a primeira vez foi preso, passaram-se 2 anos. E ele não foi pego como suspeito de nenhum dos crimes que havia cometido e sim porque teve o azar de passar na frente da casa de um policial experiente que o seguiu. Como o ligaram os casos? Denúncias. Ted se encaixava perfeitamente no perfil do assassino que a polícia já vinha procurando. Tinha o mesmo carro e as ferramentas encontradas dentro do fusca eram incriminatórias.

 

As denúncias que colocaram Ted Bundy na lista de suspeitos da polícia vieram de onde ele menos esperava. Sua namorada da época e até a própria Ann Rule informaram que conheciam um rapaz que casava com o retrato falado e que possuía o mesmo modelo de fusca que procuravam. Ann relata sua tremenda culpa por desconfiar do amigo, mas que não conseguiu ignorar todas as ‘’coincidências’’.

Ted foi pego e não demorou para que os investigadores começassem a achar as brechas e o ligassem aos crimes. É eletrizante ler todo o trabalho, os pontos que são ligados, o descobrimento do padrão Bundy e o livro nos dá acesso a uma lista de quase 40 tópicos levantados pela polícia, que mostravam Ted como o assassino que procuravam. Ann traz sua confusão pessoal em acreditar na inocência do amigo e não ter dúvidas de que ele era culpado quando conversava com os detetives.

Ted foi condenado a primeira vez em Utah. Fugiu. Condenado mais uma vez no Colorado. Mais uma fuga. A Flórida foi o fim da linha e ao meu ver, o local dos crimes mais cruéis.

Depois da segunda - e muito bem planejada - fuga, Ted conseguiu se distanciar bastante antes que percebessem sua ausência. Pegou avião, trem e não deixou rastros. Ninguém tinha a menor ideia do seu paradeiro. E ele matou novamente 8 dias depois. 3 mulheres na mesma noite. Deixando mais duas gravemente feridas. A próxima e última vítima seria uma criança de 12 anos, poucos dias depois do primeiro ataque.

Tudo que aconteceu em Pensacola é a prova clara de que Ted Bundy não tinha como conviver em sociedade. Ao chegar na Flórida, conhecida por suas duras sentenças de morte, ele deixou pra trás acusações e provas circunstanciais para encarar testemunhas oculares, a marca dos seus dentes no corpo de uma das vítimas e um juiz que não caia em seus espetáculos.

É importante ressaltar que o livro traz o diagnóstico psiquiátrico de Ted. Ele não era louco. Diversas avaliações psicológicas em todas as penitenciárias que passou e NENHUMA constatou loucura. Formado em psicologia, ele conhecia a maioria dos testes que fez. Sabia como funcionavam. Se gabava e tirava sarro disso nas cartas que enviava para Ann Rule. O último diagnóstico diz que Ted tinha um distúrbio de personalidade. No livro, Ann traz todos os detalhes e com muita clareza explica que Ted não tinha o equilíbrio que diferencia os humanos de animais. E que ele não era capaz de sentir empatia. Só se preocupava consigo mesmo e quando matava, não pensava no sofrimento das vítimas e sim no alívio que aquilo iria trazer. Era uma necessidade.



O livro também traz a análise de onde o distúrbio de Ted começou. Todas as vítimas eram extremamente parecidas com sua mãe. Filho ilegítimo, foi criado dentro de uma mentira onde achava que sua mãe era sua irmã e seus avós eram seus pais. A mãe de Ted engravidou na adolescência, foi abandonada e para manter as aparências, seus pais assumiram o neto como filho. Ted só descobriu a verdade aos 21 anos e chegou a confidenciar isso para Ann. Teve um lar extremamente violento, onde via seu avô - que ele acreditava ser pai - agredir sua mãe - que ele acreditava ser irmã - diariamente. Existe uma teoria em que de fato, o avô de Ted era mesmo seu pai e que ele seria fruto de um estupro que a mãe sofreu. Não confirmado. Outra teoria é a que Ted era violentado sexualmente pelo avô. Também não confirmada. O ponto é que ele cresceu num ambiente onde desde criança a violência - principalmente com as mulheres - era normalizada.

Condenado 3 vezes a morte, Ted só foi parar na cadeira elétrica 10 anos depois do primeiro julgamento. Três dias antes da data marcada para morrer, concedeu uma série de entrevistas confessando 35 assassinatos. Presume-se que ele tenha matado mais de 100 mulheres. Em um de seus depoimentos, o oficial pergunta se ele matou X vezes. Um número decimal. E ele responde que se acrescentassem mais um dígito, teriam o número certo de vítimas. 135? 335? Nunca saberemos. Ted levou consigo a paz de muitos pais que nunca conseguiram nem enterrar suas filhas, dadas até hoje como desaparecidas pois seus restos mortais nunca foram encontrados.



É doido pensar que o termo SERIAL KILLER ainda nem existia quando Ted Bundy começou a matar e como ele tomou posse da nomenclatura. Extremamente vaidoso e egocêntrico, Ted se achava a pessoa mais inteligente que existia. Advogou por si mesmo nos julgamentos que o condenaram à morte. Manipulava com maestria pessoas ao seu redor. Ele sempre conseguia o que queria. Achava que era merecedor disso.

Me inquieta bastante pensar como alguém consegue enfrentar uma série de julgamentos sendo seu próprio advogado, sabendo que é culpado, revivendo tudo. Vendo, escutando, interrogando testemunhas e vítimas sobreviventes. Ted convenceu muitas pessoas. Era dono de um fã clube imenso. A própria Ann só acreditou que ele era culpado ao assistir o julgamento em Miami.

A ambivalência da autora me incomodou bastante durante a leitura. Ela pinta Ted como uma pessoa gentil, simpática e inocente. Fala dele com um carinho de embrulhar o estômago. Muitas vezes se coloca como vítima e também como autoridade ‘’no assunto Ted Bundy’’, numa arrogância que só alguém que trocou correspondências com um serial killer por décadas acha que pode ter. Mas não se enganem como ela se enganou: Ted não a respeitava.

Ted Bundy - Um Estranho Ao Meu Lado me trouxe todas as piores sensações. Raiva. Nojo. Incredulidade. Raiva de novo. Cansaço e o desejo que ele estivesse fritando até hoje naquela cadeira elétrica.

Livro para maiores de 18 anos. Não indicado para pessoas sensíveis.

Título: Ted Bundy - Um Estranho ao meu lado
Autora: Ann Rule
Nº de páginas: 592
Editora: Darkside Books
Nota: 5/5⁣

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