Resenha: Casos de Família


por Aryadinni Leal

Casos de Família chegou para mim como indicação quando procurava algo sobre o caso Von  Richthofen para ler. Jornalista que sou, adoro uma história bem contada. Compartilho com a autora o fascínio que é buscar entender a mente de um criminoso. Ler sobre crimes polêmicos bate no ponto G da minha curiosidade. Pesquisar sobre uma investigação aguça todos os meus sentidos. E Ilana Casoy me deu tudo isso nesse livro.

Criminóloga e escritora, Casoy escreveu o melhor relato que já li sobre os casos Von Richthofen e Nardoni. Edição especial para a DarkSideBooks, Casos de Família é a união do ‘’Quinto Mandamento’’ e ‘’A Prova É A Testemunha’’, ambos assinados por Ilana e publicados nos anos referentes aos julgamentos dos crimes. O bônus - e que bônus! - dessa edição, são os cadernos particulares da autora que acompanhou a resolução dos crimes que chocaram o país. Quem lembra? A menina que mandou matar os próprios pais e o pai que matou a filha. São acontecimentos que a gente nunca esquece. Eu, pelo menos, nunca esqueci.

Casos de Família é dividido em dois momentos. No primeiro - O Quinto Mandamento -, Ilana te convida a conhecer de perto, nos mais minuciosos e penosos detalhes, como aconteceu o crime que vitimou Manfred e Marísia Von Richthofen. Trazendo uma narrativa diferente, Casoy conta o crime em terceira pessoa, como uma história de ficção que é impossível de largar até saber o final. Eletrizante desde a primeira página, comecei a ler e não consegui parar até chegar na confissão.


Ilana teve acesso aos bastidores do caso e traz numa construção impecável todo o trabalho da investigação. É, de novo, eletrizante. É também angustiante ler os laudos periciais dos pais de Suzane. Cada centímetro de cada golpe que eles levaram é uma pontada no coração de quem tem o livro nas mãos.

É revoltante ler os relatos unânimes da frieza de Suzane. E é até engraçado ler no depoimento dela que eles acreditavam que nunca seriam pegos, que tinham tramado o crime perfeito. O contraste do ego que só um assassino poderia ter com a ingenuidade de uma menina de 18 anos que não faz a menor ideia de como funciona uma investigação fica completamente claro.

E é devastador saber que o padrinho dela, irmão de sua mãe, estava na sala do interrogatório quando ela confessa que tramou o assassinato dos próprios pais.


Casos de Família - Arquivos Richthofen ainda traz as fotos da reconstituição do crime e a transcrição das fitas dos dias de julgamento. É um relato completo. Se você já teve curiosidade de saber como é estar em um julgamento, Ilana Casoy te leva para dentro de um com essa leitura.

Diferente do primeiro momento, em Arquivos Nardoni a autora traz o relato em primeira pessoa. É ela, seus cadernos, dentro do tribunal, durante os 5 dias do julgamento que condenou Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jabotá pelo assassinato da menina Isabella. Também diferente do primeiro momento, os Arquivos Nardoni exigiu muito mais de mim. Precisei dar uma pausa para respirar. É uma leitura difícil, densa, cansativa.

Primeiras páginas, depoimento de Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. Não segurei as lágrimas. A defesa dos réus faz uma jogada e a tira do julgamento. Como uma mãe que perde uma filha da forma como Ana Carolina perdeu Isabella não tem o direito de presenciar a justiça sendo feita pela memória de sua criança? Não segurei as lágrimas de novo. É revoltante! Mas com o decorrer da leitura, fiquei com um questionamento martelando na cabeça: Será se não foi melhor? Tudo que estava por vir é doloroso demais.

É ainda mais revoltante ler o cinismo, as mentiras e a falta de comoção de um pai que se diz inocente das acusações.

Destaque especial para o promotor Francisco Cembranelli. Os réus poderiam ter todos os advogados do país fazendo fila para defendê-los. Ninguém passaria por Cembranelli. Ler o trabalho desse homem em plenário é um espetáculo a parte que Casos de Família - Arquivos Nardoni  traz.


A riqueza de detalhes que Casoy consegue reproduzir é impressionante. Ler Ilana é uma aula. Ela descreve as reações dos réus ao longo dos depoimentos de testemunhas e especialistas, faz observações dignas, mostra tudo de forma justa e imparcial. Suas opiniões pessoais ficam para os seu cadernos, mostrados no final do livro. Anotações feitas no calor do momento que só quem acompanhou esse tribunal do júri poderia fazer. Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jabotá não enganaram Ilana, como não enganaram ninguém.

Título: Casos de Família: Arquivos Richthofen e Arquivos Nardoni
Autora: Ilana Casoy
Editora: DarksideBooks
Ano: 2017
Páginas: 528
Nota: 5/5

 

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