Resenha: O Adulto



por Júlia Recieri

Caro leitor, minhas mais humildes desculpas por ter permanecido tão longe. Mas uma filha dedicada sempre retorna à sua casa, não é mesmo? As leituras nos últimos tempos foram poucas e não combinavam com a aura que temos aqui. Entretanto, cá estou eu mais uma vez. Mais uma vez para enaltecer Gillian Flynn. 

Já estive presente aqui neste site para falar sobre Garota Exemplar e gostaria de ter tido presença de espírito para falar sobre Objetos Cortantes quando concluí a leitura, mas foi impossível. Flynn tem esse poder absurdo de conseguir nos tirar o ar e fazer com que tantos sentimentos que adoramos esconder venham à tona. A construção das personagens nos leva a um reconhecimento dolorido e até mesmo dramático, fazendo com que larguemos suas páginas para levar as mãos ao rosto. Nem tudo é prazeroso quando se trata dos seus escritos. O interesse, a curiosidade e a ansiedade que nos faz alcançarmos o final de suas histórias também trazem o arrependimento de desbravar sem vendas a natureza humana. 

No conto O Adulto, escrito a pedido de George R. R. Martin para a antologia Rogues editada por ele - como a autora dá a letra em sua nota de agradecimento - temos a princípio uma torrente de julgamentos em relação à nossa narradora. Ela, que em nenhum momento diz o seu nome, se apresenta como alguém que desde pequena ganhou a vida iludindo as pessoas. Ela precisa do seu dinheiro, então ela dá a elas o que elas desejam – a ilusão de estar ajudando uma menina necessitada, às vezes doente de raras doenças, às vezes abandonada pelos pais. Depois de mais velha, tornou-se uma batedora de punheta (isso mesmo), mas o trabalho acabou deixando sequelas e o seu pulso já não era mais como antes. Mesmo assim, sempre há espaço para quem tem o dom de dar o que as pessoas precisam. Foi assim que ela conseguiu o seu emprego de vidente. Enxergar auras e dizer o que as pessoas queriam escutar para amainar seus problemas domésticos era uma excelente oportunidade. Então ela conheceu Susan. 

Nestes primeiros encontros com Susan surgem os principais elementos da história, aqueles que realmente nos prendem. A mulher nervosa, desesperada a ponto de ir procurar ajuda de uma vidente; sua casa, um antigo solar construído em 1893; o enteado, esquisito e solitário, que ao se mudar passou a apresentar um comportamento que a amedronta. São com apenas estes três elementos que Flynn conquista a sua atenção e te leva a um abismo de possibilidades. Em quem acreditar? No que acreditar? E de tanto matutar, como fiz nesta manhã após concluir a leitura, acabei me fazendo a seguinte pergunta: no que você deseja acreditar? 

Eu encontrei a minha resposta. Leia o conto e nos diga a sua.


Título original: What do you do?
Autor(a): Gillian Flynn
Ano da edição: 2016
Número de páginas: 64
Editora: Intrínseca

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