A Lenda do Cão Negro


por Pat Mendes 
 
Você pensava que ele era somente o melhor amigo do homem? Você está meramente enganado...Uma amizade de longa data vinda de tempos pré-históricos em que ambos ajudavam-se mutuamente e que, ao longo do tempo, serviu para reforçar a presença deste laço existente e desta reciprocidade...no entanto, se imaginarmos este cenário desconstruído, como em nossos piores pesadelos, pensamentos acerca de um ser macabro e agressivo surgirão, e um medo primitivo certamente nos será desencadeado.

É com essa premissa que lendas e histórias assombrosas sobre cães, nos desperta tamanha curiosidade e perturbação, afinal, como um ser tão doce e inocente é passível de nos causar inegável temor? Como aquele que deveria ser o nosso amigo, guardião e companheiro poderia nos tornar uma ameaça? Considerando essa ambiguidade de sentimentos a respeito dos cães, não é de se surpreender que o folclore de vários povos do mundo possua intrigantes histórias sobrenaturais a respeito destes animais.

Uma das lendas mais duradouras e disseminadas a respeito deste tema consiste na Lenda do Cão Negro, também denominado de Cão do Inferno, exploradas, principalmente, pelo folclore e pela literatura britânica. Nos séculos XIV e XV, período em que grandes combates como a Guerra dos 100 Anos (1337 - 1453) e a Guerra das Rosas (1455 - 1485) desenrolaram-se no território europeu, era comum o relato de avistamentos de Cães Negros próximos a cemitérios, campos de batalha, valas e trincheiras, locais onde muitos cadáveres de soldados repousavam ou eram friamente sepultados, atribuindo-se a estes seres a função de guardiões dos mortos. Ao longo dos séculos, todos os conflitos que tiveram como palco a Europa, passando pelas Guerras Napoleônicas (1803 - 1815) e a Primeira Guerra Mundial (1814 - 1918), foram acompanhados de relatos sobre a presença sobrenatural de um Cão Negro permeando à espreita, que aparecia e desaparecia misteriosamente, perpetuando medo, caos e mortes. 

Diferenciando da aparência humanoide dos lobisomens, os Cães Negros são descritos como animais quadrúpedes configurando o semblante de um cão de grande porte, possuindo pêlos arrepiados totalmente enegrecidos e foscos, com olhos bem evidentes de coloração vermelha ou amarelada que brilham intensamente na escuridão, exibindo, por vezes, suas grandes presas.
 
Despertando o imaginário de muitas pessoas, obviamente a aparência relatada e as histórias dos Cães Negros serviriam como base para a criação de muitas obras, tanto que, em 1835, o escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen escreveu sobre estes misteriosos seres em seu conto A caixa de fósforos (The Tinderbox). Não obstante ao significado de mau agouro atribuído a tais aparições, Sir Arthur Conan Doyle, utilizou as narrativas da época para, em 1902, redigir uma das mais conhecidas histórias de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles). Foi também influenciada por tais relatos, que Agatha Christie, em 1912, escreveu um conto intitulado O Cão da Morte (The Hound of Death), a respeito de um enorme cão fantasmagórico que aparecia e matava as pessoas no condado de Cornwall na Inglaterra. Nessa mesma época, do outro lado do Atlântico, em Clarkdale que o guitarrista Robert Johnson afirmou ter feito um pacto com o diabo que apareceu para ele na forma de um Cão Negro em uma encruzilhada.
 

A lenda se popularizou tanto que passou a representar uma expressão para designar um estado de ânimo ruim, Winston Churchill já dizia: “o Cão Negro sobre o meu ombro” para referir-se a melancolia proveniente de sua depressão crônica. As noites de tempestades fortes seguidas de assustadoras trovoadas passaram a ser designadas pelo termo Noite do Cão Negro (Night of the Black Dog), atribuindo o fenômeno à provável presença do Cão Negro vagando pelas ruas nestas ocasiões. 

O escritor Stephen King foi também influenciado pelos relatos sobre as aparições do Cão Negro, proferidos por diferentes populações ao longo do tempo, criando na década de 80 a história do cão assassino Cujo, que teve sua obra homônima publicada em 1983.

Apesar de, no Reino Unido e na Espanha, perpetuarem-se relatos sobre cães ferozes e demoníacos que apareciam para aterrorizar e atacar os viajantes ou peregrinos, na França o uivo de um Cão Negro simbolizar má sorte, e a visão representar morte iminente; o misticismo acerca do Cão Negro chegou aos Estados Unidos, atribuindo-lhes a função de guardiões espirituais dos mortos, protegendo as lápides dos cemitérios onde escravos eram sepultados, assim como pensava-se no século XIV e XV na Europa. No Brasil colonial, uma lenda descrita no Livro Negro de São Cipriano trazida de Portugal, foi muito difundida na época em terras nacionais referenciando o feitiço do Cão Negro que, segundo a lenda, ao ser invocado promete fidelidade ao seu feiticeiro com a missão de assassinar seus desafetos ou aqueles que lhe causarem algum mal. 
 
 
Sejam estas histórias apenas invenções, provenientes da imaginação, personificação de sentimentos ruins ou simplesmente uma confusão ao avistar um cachorro perdido e moribundo na escuridão, o fato é que elas possuem inúmeras vertentes à serem contadas e persistem mundialmente até os dias atuais, sendo principalmente relatadas por pessoas que vivem em áreas rurais, ganhando notoriedade e garantindo ao Cão Negro a duradoura presença no folclore mundial sob diferentes nomenclaturas - Barghest, Galleytrot, Hell Hound, Padfoot, Shuck, Snarleyow, Striker, Trash, Whist Hound, Yelp Hound - e possuindo significados paradoxais - comunicação com o mundo espiritual, proteção, força elemental, profecia, vingança, perigo, sinal de alerta - que nos incitam a curiosidade, o mistério e a busca pelo do desconhecido.

Episódios do programa Animal X discorrendo sobre Cães Negros Fantasmas 
 

Documentário da Netflix sobre o pacto de Robert Johnson: 
ReMastered: O Diabo na Encruzilhada.
 


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