Resenha: O Demonologista



por Jéssica Roriz

Neste best-seller assinado pelo canadense Andrew Pyper, a história gira em torno de David Ullman, um renomado professor da Universidade de Columbia e especialista na figura literária do Diabo – principalmente no que se refere à ‘Paraíso Perdido’, a obra-prima de John Milton, que fala sobre a queda de Lúcifer e a expulsão de Adão e Eva do paraíso.

Ao longo dos anos, a representação literária do Demônio foi tema de diversas criações aclamadas pelos fãs de terror e obras como ‘O Exorcista’ (William Peter Blatty), ‘O Bebê de Rosemary’ (Ira Levin) e 'A Profecia' (David Seltzer), todas lançadas entre às décadas de 60 e 70, ainda norteiam e servem como parâmetro para novos trabalhos sobre demônios e exorcismos e ‘O Demonologista’ é um exemplo perfeito disso, uma vez que a trama de Pyper consegue dosar perfeitamente vários elementos como a tensão e o mistério de um thriller, a agonia e o horror de uma boa história de terror e uma pitada de religião – graças às constantes referências à obra de John Milton (há, inclusive, uma espécie de perfil do autor inglês nas páginas finais), em um limpo, moderno e claustrofóbico livro, trazido ao Brasil pela DarkSideBooks numa luxuosa impressão com o selo caveirinha de qualidade, contando ainda com algumas das mais famosas ilustrações de Gustave Doré, pintor romancista que ficou famoso por ter ilustrado diversas obras como o próprio ‘Paraíso Perdido’, de modo que talvez nem seja tão exagerado assim afirmar que a edição brasileira é tão bonita que provocaria inveja no próprio  Milton.


Na trama, o professor espelha a nada ortodoxa visão miltoniana tão característica de ‘Paraíso Perdido’ em sua própria personalidade. O fato de ter dedicado toda a sua carreira e boa parte de sua vida ao estudo teórico de um Diabo literário faz com que ele enxergue a religião como um mito, no mínimo, ultrapassado. E é por isso que quando uma estranha mulher entra em seu escritório e o instiga a viajar até Veneza para aplicar na prática todo o seu conhecimento e a sua experiência, Ullman enxerga o cenário perfeito para fugir de todos os seus demônios pessoais, bem como uma ótima desculpa para passar alguns dias com Tess, a filha adolescente de quem ele vem tentando se reaproximar desde um conturbado divórcio com Diane, a mãe da garota, por quem David ainda mantém sentimentos conflituosos.

No entanto, o que seria apenas uma viagem de férias entre pai e filha acaba se tornando uma enervante jornada pelos recantos mais sombrios da alma, dando a David razões para começar a questionar seu ceticismo já que, ao comparecer ao endereço passado pela figura estranha que o abordou semanas antes, ele se vê diante de uma porta fechada em um corredor escuro, completamente sozinho e sem nenhuma outra opção além de ceder à sua curiosidade, abrir a porta e descobrir de onde vem a respiração tão pesada e agoniante que consegue ouvir.

Como diria Charles Baudelaire, ‘o maior truque já realizado pelo diabo foi convencer o mundo de que ele não existe’ e é por isso que a figura trancafiada dentro do quarto, um homem de meia idade fortemente amarrado a uma cadeira, é um golpe direto do qual Ullman jamais irá se recuperar. Os ferimentos no corpo magro e debilitado evidenciam uma luta alucinante que está, aos poucos, acabando com o pobre homem, mas seu olhar é intenso e maligno, sua voz parece ser capaz de rasgar os tímpanos de alguém com a força de um milhão de cacos de vidro e o seu discurso carrega todo o horror presente no mundo.


Há quem aponte as mudanças repentinas de tom como um grande problema do livro, mas particularmente, devo dizer que essa foi uma das minhas características favoritas. O desenvolvimento da história, bem como o crescente incômodo que ela provoca, acontece de forma tão acentuada que em certos momentos - como o primeiro encontro entre David e o homem, a moça estranha que pedia carona na estrada, todos os segredos guardados possivelmente guardados no porão de uma simpática senhora ou as lembranças que do irmão, do pai e da sua infância de modo geral, o leitor se sentirá impelido a olhar para trás e conferir se ainda está sozinho no quarto e, se não o fizer, será pelo simples medo de descobrir que não está.

Aqui, a narrativa em primeira pessoa, a sempre inteligente participação de Elaine O'Brien, fiel companheira do protagonista que se faz presente na trama mesmo quando apenas na cabeça do amigo e as sutis descrições de acontecimentos horrendos brincam com a sanidade, não somente de David e dos outros personagens, mas também do leitor, o envolvendo numa neblina sobrenatural cuja única saída é escolher o lado certo e tentar resolver esse quebra-cabeça demoníaco que se inicia em Veneza, mas pode muito bem terminar no inferno.


O sucesso de 'O Demonologista' foi tanto que, mesmo antes do livro chegar ao Brasil em 2015, já havia boatos sobre uma possível adaptação cinematográfica, uma vez que a Universal Pictures e a ImageMovers adquiriram os direitos sob a obra de Andrew Pyper ainda em 2012. No entanto, infelizmente não existe nenhuma pista de que a produção, que deveria estrear em 2019, esteja sequer sendo preparada.

Em 2016, a DarkSideBooks presenteou seus leitores com a estreia de 'Os Condenados', mais um ótimo livro de Pyper e, em 2018, lançou a graphic novel baseada em 'Paraíso Perdido', edição com 320 páginas e a ilustração do espanhol Pablo Auladell, que inclusive ganhou o Premio Nacional de Cómic, da Espanha pelo trabalho no livro. Entre os próximos lançamentos previstos, há ainda um outro título do autor ('A Criatura').

A gente mal pode esperar, e vocês?

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