Resenha: Meu Amigo Dahmer


por Júlia Recieri

Em 1991, foi descoberta pela polícia uma dezena de corpos espalhados e desmembrados no apartamento de Jeffrey Dahmer. Havia cabeças no congelador e um altar feito com crânios de suas vítimas. Uma coleção de pênis conservados em produtos químicos e fotografias. O Canibal de Milwaukee, como Dahmer ficou conhecido, foi sentenciado por 957 anos de prisão perpétua, e admitiu ter estuprado, mutilado, assassinado 17 vítimas, homens adultos e garotos, além de ter devorado partes de seus corpos. Dessas 17 vítimas, apenas 15 foram realmente descobertas. Em 1994, Dahmer foi assassinado na prisão por um preso que ouvia vozes e que tinha sido escolhido para a missão de eliminar o mau que Dahmer transmitia. 

Foi também em 1991, quando os crimes de Dahmer vieram a público, que Derf resolveu escrever a primeira história sobre a sua juventude ao lado de Dahmer. Ele nunca havia pensado no colega de classe desde então e, com a popularidade que toda a história conquistou, o cartunista encontrou a oportunidade de contar outro lado de Jeff Dahmer que poucos conheciam. A primeira versão de Meu Amigo Dahmer teve apenas oito páginas e, entre 1994 e 1997, continuou ganhando forma. Mesmo com a fama do assassino que dava nome à história, Derf não conseguiu vender o projeto e, apenas em 2002, lançou uma edição independente de 24 páginas que finalmente ganhou a atenção que merecia. Em 2012, Derf lançou a versão que temos agora e que, para a nossa grande sede por histórias bizarras, ganhou uma belíssima edição no Brasil pela DarkSide Books em 2017 – a sua primeira graphic novel.

Meu Amigo Dahmer nos apresenta uma perspectiva humana e te mostra a adolescência introspectiva e solitária de Dahmer. Derf, além da sua própria vivência, utilizou arquivos da polícia e entrevistou pessoas que também vivenciaram os seus anos de colégio a fim de dar ainda mais veracidade ao seu relato. Os problemas familiares, as dificuldades em encontrar amigos de verdade, os hobbies bizarros – tudo, embora resumido, pode ser encontrado nessa história. 

Embora não possamos pensar que um adolescente fosse capaz de perceber em um colega de classe traços de um futuro assassino, é difícil acreditar que nenhum adulto tenha notado os problemas de Dahmer. Dahmer tornou-se alcoólatra durante a sua adolescência e frequentava as aulas com copos para café cheios de bebidas fortes. Sua total reclusão só ganhou proporções menores quando passou a imitar os espasmos de sua mãe. Fingia ser louco para causar riso e tornou-se como uma espécie de bobo da corte para os colegas. Mesmo que participasse de atividades extracurriculares, Dahmer não tinha amigos com quem pudesse contar e passava boa parte de seu tempo desmembrando e dissecando animais mortos que encontrava próximo à sua casa e para então dissolvê-los em produtos químicos que seu pai fornecia. Depois de um tempo, ele percebeu que era capaz de matar e caçava, mutilava e pendurava como espantalhos pela floresta seus próprios animais. Tudo isso só ganhou proporções cada vez maiores e logo ele estava disposto a caçar criaturas maiores. 

Ler Meu Amigo Dahmer me fez pensar em todos os colegas de classe que um dia tive: aqueles que como Dahmer, passaram por nós invisíveis, e outros que todo o destaque tinham e que no fundo escondiam outras tantas faces. Será que ao menos um deles um dia encontrou o mesmo destino? Assim como Derf mesmo diz, ele nunca imaginou que aquele cara da banda da escola pudesse se tornar um dos mais famosos assassinos da História. 

“Para você, Dahmer era um monstro depravado; para mim, era apenas um garoto na sala de música do colégio.” 

(Em 2017, Meu Amigo Dahmer foi muito bem adaptada para o cinema, posso garantir. Você encontra o filme disponível para download aqui no nosso site, viu? É só clicar aqui.)

Se você, caro leitor, assim como eu, teve o seu primeiro contato com a história de Dahmer através dos quadrinhos de Derf, imagino que tenha criado certa empatia pelo terrível assassino. Confesso que muito antes de procurar conhecer melhor os seus feitos, eu nutria piedade e compaixão. Ainda existem resquícios desses pensamentos e que volta e meia retornam para a minha caixa de entrada: será que se Dahmer tivesse sido notado pelos adultos durante a sua adolescência, teria seguido por outro caminho?

Título original: My Friend Dahmer
Organização: Derf Backderf
Tradução: Érico Assis
Ano da edição: 2017
Número de páginas: 288
Editora: DarkSide Books

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