Info: Dália Negra, AHS e o horror americano


American Horror Story é uma série norte-americana de suspense e terror não linear que, a cada temporada, traz uma trama centrada em um tema e seu elenco principal interpretando personagens novos e completamente diferentes da temporada anterior. A série, que é livremente baseada em fatos reais e já teve os subtítulos Murder House, Asylum, Coven, Freak Show, Hotel, Roanoke e Cult, vem acumulando prêmios, indicações e inúmeros fãs desde a sua estreia, em 2011, principalmente por nunca cair na mesmice.

Nessa semana, a FOX aproveitou a San Diego Comic-Con para divulgar pôster e subtítulo da nova temporada e a gente, que mal superou a temporada Cult, não poderia estar mais ansioso. American Horror Story Apocalypse está prevista para estrear em setembro e, segundo o diretor e criador Ryan Murphy, podemos esperar que essa oitava temporada seja uma espécie de crossover entre as narrativas de Murder House e Coven, ainda que seja, ao mesmo tempo, totalmente diferente de tudo o que já foi visto na série.

E já que não há muito o que fazer a não ser esperar até setembro, decidimos trazer pra vocês uma das muitas histórias sombrias que serviu de inspiração para a série, o caso Dália Negra.

A descoberta de um corpo:

O corpo encontrado na calçada de uma avenida movimentada.

Em 15 de janeiro de 1947, o corpo de uma mulher é encontrado em um terreno baldio na Avenida South Norton, em Los Angeles. A cena, que já seria chocante por si só, tem um alguns detalhes que tornam tudo ainda mais macabro: 1- O cadáver está perfeitamente cortado ao meio. 2- Além de diversas lesões aparentes na testa, nas mamas, nas coxas e a inserção de um estranho objeto no ânus da vítima, havia, no que um dia foi um bonito rosto, um corte de orelha a orelha que formava um sorriso doentio, popularmente conhecido como “sorriso de Glasgow”, evidenciando o rancor, a passionalidade e o sarcasmo do ato. 3- Todo o sangue da vítima fora completamente drenado. 4- A posição na qual o corpo foi encontrado - o tronco colocado à exatos 15 centímetros de distância das pernas, expondo o intestino e os rins, os braços erguidos e dobrados em cima da cabeça num ângulo de 90 graus - indicava que nada ali era por acaso, que não era uma simples desova, mas sim uma exibição criada propositalmente, como se o crime fosse uma obra de arte e, o criminoso, um artista à ser apreciado.

O chocante antes e depois de Elizabeth Short.

Era difícil acreditar no que se estava vendo. Policiais e curiosos olhavam incrédulos para a aquela cena que estava prestes a se tornar ainda mais curiosa, já que logo os investigadores do caso identificariam a vítima como sendo a jovem Elizabeth Short, de apenas 22 anos, uma aspirante a atriz que estava sempre circulando em Hollywood Boulevard. Além da sua inegável beleza, caracterizada principalmente pela pele clara, olhos azuis e os seus cachos esvoaçantes, a forma como vestia-se de preto e usava uma dália negra presa em seus cabelos certamente chamavam a atenção de todos por onde ela passava, fazendo com que o caso logo fosse abraçado pela mídia da época, que passou a se referir ao terrível assassinato como “O Caso D’A Dália Negra”, uma ideia de Bevo Means, então repórter do L.A. Herald Express, numa clara referência ao filme noir “A Dália Azul”, lançado um ano antes.

A autópsia realizada confirmou o que se esperava: A divisão entre tronco e membros inferiores havia sido feita de forma cuidadosa e profissional, de modo que nenhum dos órgãos internos fosse afetado, indicando que o autor do crime provavelmente dominava a anatomia humana com maestria. No entanto, essa era a única pista que os investigadores tinham sobre o assassino e não demorou muito até que coisas realmente estranhas começassem a acontecer. Agoniado com a falta de perspicácia da polícia, o suposto autor do crime enviou a bolsa da vítima e alguns cartões postais enigmáticos para a polícia e, no decorrer dos meses, todos os jornais que cobriam o caso começaram a receber mensagens do criminoso, instigando-os a tentar descobrir sua verdadeira identidade, o que a psiquiatria forense considera um padrão em crimes sem solução: o indivíduo não deseja se entregar e não tem interesse nenhum em ser punido, mas sente uma enorme necessidade de se comunicar com o público em busca de reconhecimento.

Uma das muitas mensagens enviadas pelo suposto assassino.

O misterioso esquartejamento chocou toda a sociedade da época e transformou a jovem, que ironicamente sonhava com o sucesso, em uma celebridade. Com o passar dos anos, inúmeras obras foram inspiradas pelo caso, como o filme Dália Negra, de 2006, e a própria American Horror Story, como já mencionado. O fato mexeu tanto com a Hollywood da década de 40 que até mesmo Orson Welles, o lendário diretor por trás de filmes como Cidadão Kane (1941) e Jane Eyre (1943) foi investigado como possível autor do crime, mas apesar de todo o frenesi, o caso nunca foi plenamente resolvido pela polícia de Los Angeles, sob a qual recaíram inúmeras suspeitas de um encobrimento, principalmente pelo sensacionalismo com o qual o crime foi tratado e pela forma como os responsáveis pela investigação pareciam mais interessados em explanar detalhes da vida íntima da vítima e culpá-la pelo que chamaram de “conduta inapropriada” do que em continuar buscando pistas que levassem à identificação do assassino.

Segredos Do Passado:

Com a correria do dia a dia, nós estamos sempre tão ocupados com as nossas próprias questões que acabamos por esquecer que os nossos pais são pessoas que tiveram ou que ainda tem uma vida completamente independente da nossa, de modo que alguns de nós passam a vida inteira sem realmente conhecer a verdade sobre àqueles que nos colocaram nesse mundo.

Steve Hodel, um policial aposentado, provavelmente iria preferir nunca ter feito as descobertas que fez quando, em 1991, começou a pesquisar sobre o pai recém falecido, a fim de descobrir mais sobre ele. Steve já sabia que o pai, George Hill Hodel, havia sido um jovem talentoso que, com apenas 9 anos, já era considerado um prodígio no piano, tendo inclusive ficado conhecido por alcançar um ponto acima de Albert Einstein em um teste de QI, de modo que não foi surpresa para ninguém quando, aos 14 anos, George fora aceito em uma renomada faculdade.

A genialidade do pai, no entanto, lhe custou um preço alto, já que sem conseguir se enturmar com os colegas mais velhos, ele acabou tornando-se introspectivo e entregando-se às drogas. Com 19 anos, George usou sua inteligência para ludibriar um jornal local e conseguir uma vaga como repórter policial, o que acabou o colocando em contato direto com as mais escabrosas cenas de crime ocorridas pela cidade, despertando nele um interesse genuíno pelo corpo humano. A violência que vivenciava não o chocava e, ao contrário disso, parecia inspirá-lo.

Posteriormente, ele se tornou um renomado médico, dirigindo sua própria clínica para tratamento de doenças venéreas, passando a conhecer os mais sórdidos segredos dos magnatas donos de estúdios e das grandes celebridades de Hollywood. Essa aproximação com pessoas importantes fez com que o médico realizasse grandes festas regadas a sexo, álcool e drogas, nas quais o alto escalão de Los Angeles se sentia realmente à vontade.

George Hill Hodel, pai de Steve Hodel.

Todas essas novidades sobre o pai foram uma surpresa para Steve, que se lembrava dele como alguém que até podia ser charmoso e carismático quando o assunto era trabalho, mas que era essencialmente rígido e dificilmente demonstrava emoções em casa, no entanto, nenhuma surpresa foi maior ou mais chocante do que encontrar uma fotografia  que, aparentemente, fora tirada pelo pai. Na foto, uma mulher posava nua, uma mulher cujo rosto era conhecido, não por frequentar a casa ou fazer parte da família, mas sim por protagonizar um dos crimes não resolvidos mais conhecidos da história do país.

As fotos encontradas por Steve no arquivo pessoal do pai.

Steve era apenas uma criança na década de 40, mas as proporções que o caso tomou fizeram com que ele se lembrasse imediatamente daquele rosto. Qual seria a ligação entre George Hill Hodel e Elizabeth Short? Estaria o pai, um notório gênio de quem Steve sempre teve orgulho, ligado ao Caso Dália Negra?

Uma Nova Investigação:

Ao encontrar a foto de Elizabeth na coleção particular do pai, Steve resolveu usar toda a sua experiência como policial para estudar o caso. Para ele, a natureza violenta como Elizabeth foi morta revelam muito sobre o autor do crime. Já estava constatado que o assassino era um exímio cirurgião - E Steve sabia que o pai tinha pelo menos 7 mil horas de cirurgia em seu currículo, tornando-o altamente qualificado -, e essa não era a única coincidência bizarra. Os postais anônimos enviados pelo assassino eram compostos basicamente por frases que pareciam manchetes prontas - E o pai havia atuado na área por um certo tempo. Além disso, agora Steve estava convencido de que ele e Elizabeth tiveram um caso amoroso, o que explicaria o rancor e a passionalidade no caso, de modo que o fato das características principais do caso lembrarem vagamente algumas das fotografias e pinturas que costumeiramente apresentavam imagens de corpos segmentados de Man Ray, um renomado pintor surrealista e amigo pessoal de George, acabou se tornando a cereja em bolo de coincidências que Steve simplesmente não conseguia mais ignorar.

A obra Minotaur, 1934, de Man Ray. Teria sido ela uma das inspirações para o crime?

Dividido entre a culpa e a vergonha, ele demorou sete anos para levar todo o material reunido em sua pesquisa particular para às autoridades e, apesar da convicção da ligação do pai, ficou surpreso em descobrir que George havia sido indiciado como principal suspeito. Steve queria que a promotoria reavaliasse todas as provas, o que acabou não acontecendo porque, além de o caso ter sido encerrado há muitos anos, todas as análises de provas materiais, bem como as transcrições dos depoimentos de George e de outros suspeitos que foram igualmente descartados pela polícia haviam simplesmente desaparecido dos arquivos locais, fato que a polícia de Los Angeles não soube explicar, limitando-se apenas em declarar que ‘essas coisas acontecem’.


George Hill Hodel foi indiciado e liberado durante as investigações.

A investigação nos dias de hoje:

Pouco mais de 70 anos depois, sabe-se que a forma como a investigação foi conduzida pode ter tido ligação direta com a falta de solucionamento do caso, como aponta a pesquisadora Piu Eatwell, autora do livro “Black Dahlia, Red Rose: The Crime, Corruption and Cover-Up of America’s Greatest Unsolved Murder”.

No livro, Eatwell lembra que a polícia focou em 25 suspeitos - incluindo o médico George Hill Hodel - mas acabou descartando todos eles numa lambança sem precedentes.

Segundo a pesquisa de Eatwell, havia ainda provas circunstanciais contundentes da participação de Leslie Dillon, que ao que tudo indica havia sido pago pelo figurão dinamarquês Mark Hansen, que além de ser presença VIP no showbizz, era dono de várias salas de cinema e de um cassino clandestino. No livro, a autora explica a relação de Elizabeth com Hansen e, como Leslie Dillon trabalhava para Hansen, sabia de detalhes do crime que somente o assassino poderia saber, e tinha trabalhado durante muito tempo em um necrotério, experiência que justificaria a precisão do crime, ele logo se tornou um suspeito.


Eatwell conta, ainda, que apesar de haverem reunido provas circunstanciais contundentes contra Dillon, ele, ao contrário de George Hodel, jamais chegou a ser oficialmente indiciado. A explicação para isso seria a de que Dillon simplesmente sabia demais, tendo feito um acordo com a polícia de Los Angeles que, na época, enfrentava graves acusações de corrupção. Segundo ela, Dillon havia garantido que não diria uma única palavra se fosse liberado, mas que revelaria tudo o que sabia sobre os corpos enterrados pelo crime organizado espalhados pela cidade se fosse preso. Não se sabe se esse acordo realmente existiu, mas sabe-se que nem Hansen e nem Dillon jamais foram oficialmente relacionados com o caso.

É impossível negar que Leslie Dillon (ao centro) parecia bem à vontade em seu depoimento.

Teria havido ainda uma campanha para suprimir os fatos e desacreditar testemunhas chaves na sequência do grande júri de 1949, mas essa acaba sendo apenas mais uma hipótese sem provas e, uma vez que todos os protagonistas dessa história estão mortos e os principais arquivos desapareceram, a morte de Elizabeth Short infelizmente segue sendo apenas mais um dos inúmeros casos que foram encerrados sem que um culpado fosse devidamente penalizado.


0 comentários:

Postar um comentário

 

sobre o filme-c

site dedicado ao compartilhamento/download de filmes e séries nas categorias terror, sci-fi, mistério/suspense e trash's, dos mais antigos aos mais recentes. Façam bom proveito e façam também seus pedidos :)

Termos do Site

todos os arquivos de torrent que se encontram no filme-c, estão hospedados na própria internet, fazer o download desses arquivos através do nosso site é de única e exclusiva responsabilidade tua.